Brasileiros levam capoeira da paz a congoleses



Com a luta, cerca de quatro mil menores e jovens da República Democrática do Congo tentam superar violência e se reinserir na sociedade.

Ao ritmo de berimbau e pandeiro, crianças e jovens da República Democrática do Congo tentam superar uma realidade de intensos conflitos armados, violações e vulnerabilidade. Elas se esquecem, pelo menos por um instante, da infância conturbada, dando espaço a sonhos e planos para o futuro. Desde que o projeto “Capoeira pela paz” desembarcou no segundo maior país da África, há três anos, cerca de quatro mil menores e jovens — de 6 a 25 anos — já foram apresentados à luta brasileira.

Idealizada pelo embaixador do Brasil na República Democrática do Congo, Paulo Uchôa, a iniciativa foi implementada primeiro em Goma, capital da província do Kivu do Norte (área mais violenta do país), para atender crianças desmobilizadas de grupos armados e em fase de reinserção na sociedade. Depois, a prática da capoeira se estendeu a outras localidades. Na capital, Kinshasa, o programa é destinado a menores de rua da periferia. E na região Norte, é aplicado para refugiados nos campos de Mole e Boyabu.

— Quando cheguei ao país, fui tomando conhecimento dos aspectos da realidade local e da situação das crianças. Busquei algum projeto que pudesse contribuir com a pacificação e a reintegração social — contou o embaixador, que praticou capoeira na adolescência. — Nos últimos 40 anos, a capoeira começou a ser abordada pela sua capacidade sociointerativa de promover inclusão e conter a violência. A atividade ajuda as crianças rejeitadas a superarem traumas e a tentarem encarar a ressocialização de maneira natural e suave.

Coordenador do projeto em Goma, o mestre de capoeira Flávio Saudade ressalta que a prática, utilizada como ferramenta social, também oferece a possibilidade de reconstrução da identidade e contribui para a formação humana.

— A criança entra em contato consigo mesma. Tentamos criar um círculo de interação e proteção com apoio da comunidade e das famílias. O objetivo é que elas se tornem multiplicadoras e possam espalhar a capoeira pelo país — destacou Flávio.

Natural de São Gonçalo, o mestre já havia trabalhado em favelas no Rio e no Haiti. Ele descreveu o drama enfrentado pelos capoeiristas congoleses aprendizes, a maioria vítima de violações e brutalidade. Rico em minerais, o país é palco da violenta disputa entre grupos rebeldes armados.

— Muitas das crianças foram raptadas, sofreram recrutamento forçado e tiveram suas escolas e vilas invadidas. A situação para as meninas é ainda pior, pois foram vítimas de abusos sexuais. Com a capoeira, elas aprendem a dominar suas emoções e a perdoar colegas que vieram de grupos armados rivais — complementou Flávio, que também coordenou o projeto "Gingado pela Paz" para haitianos em Porto Príncipe, da ONG Viva Rio.








Fonte: OGLOBO
Imagem: Reprodução

Sem comentários:

Com tecnologia do Blogger.