Quarta-feira, 21 de Março. O relógio marca 5h40 e uma multidão, formada por jovens e idosos, concentra-se diante da porta principal do Instituto Angolano de Controlo do Cancro (IACC), na Baixa de Luanda.
Não se trata de cidadãos à procura de uma vaga de em-prego naquela instituição da Saúde, muito menos de trabalhadores a reivindicar al-gum direito. São pessoas que carregam algum problema do foro oncológico. Alguns disseram ao Jornal de Angola que o número de pessoas atendidas pela primeira vez chega a 20 diariamente, daí a razão de as pessoas chegarem cedo ao local.
Entre a multidão está Julie-ta Pedro, 45 anos, que decidiu passar a noite nos arredores do hospital para conseguir uma vaga. Julieta Pedro ex-plica ter passado uma noite ao relento por não ser fácil conseguir uma consulta pela primeira vez se chegar tarde ao instituto.
“Além de os lugares disponíveis serem poucos, esgotam-se de forma assustadora. Até às cinco horas da manhã ainda se pode encontrar menos de 20 pessoas na lista”, conta a mulher, que disse ter ido, em duas ocasiões, àquela unidade às cinco horas, mas não conseguiu atendimento.
Constantes e fortes dores na mama esquerda estão na origem da sua deslocação ao instituto. Ela vive no bairro Bondo Chapéu.
Pedro Paulo, de 65 anos, está na fila por causa de um exame à próstata. No seu entender, as vagas terminam cedo porque os seguranças as comercializam. “Eles vendem ao preço de dois a três mil kwanzas a cada paciente que não aceita aparecer aqui às quatro horas ou mesmo pernoitar”, lamentou Pedro Paulo.
O número de doentes atendidos em consultas pela primeira vez é irrisório devido ao elevado número de pacientes que acorrem à unidade hospitalar pública. “Há pessoas que saem daqui frustradas por não conseguirem um vaga, mesmo pernoitando”, acentuou Pedro Paulo.
A consulta pela primeira vez só é feita se o doente tiver uma guia de transferência passada por uma unidade sanitária, onde o doente já fazia consultas de rastreio.
“Se sairmos de casa directamente para aqui, sem antes passar por uma unidade sanitária pública para o levantamento de uma guia de transferência, não atendem”, explicou o cidadão. No momento em que os doentes estavam já acomodados na sala de espera, a aguardar pelos catalogadores, que chegam às 8h00, um homem, trajado de fato e gravata e com uma pasta de cor preta na mão direita, entra na sala. Não é funcionário ligado àquela instituição, mas sim pregador da palavra de Deus.
Alguns doentes já o conheciam. Depois da saudação, seguida de uma breve oração, começa a pregar. O homem mostra ser um bom pregador. Consegue transformar o lugar em igreja. “Nada é impossível para Deus. Confiem Nele e somente Nele. A doença que vocês carregam será curada. Lembram-se da mulher do fluxo de sangue?”, pergunta o pregador, referindo-se a uma figura bíblica que, depois de ter sofrido durante 12 anos com uma hemorragia, ficou curada após tocar nas vestes de Jesus Cristo.
A mensagem mexeu com Domingas Ngueve, de 18 anos, que não consegue amamentar o filho de um ano há dois meses, porque, em vez de leite, dos seios sai pus misturado com sangue.
A jovem não sabe se cuida da sua saúde ou a do filho que, por ser portador de deficiência física, faz sessões regulares de massagem no Hospital Pediátrico David Bernardino.
O director-geral do Instituto Angolano de Controlo do Cancro, Fernando Miguel, informou que, entre os adultos, os cancros mais frequentes são os da mama, do colo do útero e da próstata e, em crianças, são os ligados aos olhos, rins e sangue.
O médico disse que o cancro é uma doença assintomática, por isso “a prevenção é a principal arma de combate”. Quando os sinais aparecem é porque a doença já atingiu níveis alarmantes, alerta o médico, que recomendou às mulheres acima dos 40 anos a fazerem uma vez por ano o exame de mamografia.
Fernando Miguel informou que cerca de 85 por cento dos doentes que se dirigem ao Instituto Angolano de Controlo do Cancro chega já em estado crítico, razão por que a instituição não consegue fazer muito por eles.
O instituto tem uma média de um óbito por dia, revelou o médico.
O Instituto Angolano de Controlo do Cancro controla 6.500 doentes, 1.300 dos quais diagnosticados no ano passado. O instituto dispõe de 35 médicos, 26 dos quais especialistas em diferentes áreas oncológicas, e tem capacidade instalada de 120 camas.No dia 21 de Março estavam internados 55 doentes, alguns dos quais já se en-contravam na fase terminal da doença.
Cancro mata uma pessoa todos os dias em Luanda
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