Dimensão de Neto ultrapassa fronteiras


Hoje é o Dia do Herói Nacional. A efeméride é celebrada pela data  natalícia do primeiro Presidente, António Agostinho Neto, nascido a 17 de Setembro de 1922, em Kaxicane, e falecido a 10 de Setembro de 1979 em Moscovo. Várias actividades estão a ser desenvolvidas em todas as províncias. O acto central realiza-se em Mbanza Congo.


O Bureau Político do Comité Central do MPLA rendeu ontem uma \"profunda homenagem\" a todos os protagonistas da luta de libertação nacional, da paz e do desenvolvimento do país, em especial ao Presidente António Agostinho Neto.

Num comunicado emitido por ocasião do Dia do Fundador da Nação e  do Herói Nacional, que hoje se assinala, o órgão de cúpula do partido no poder considera Agostinho Neto o \"maior Herói da Luta de Libertação Nacional\", que soube liderar com muita perspicácia e que deixou como legado a Independência do país do jugo colonial português. 

Agostinho Neto, acrescenta, projectou a revolução angolana na luta vitoriosa da humanidade inteira. \"Ele é, assim, o símbolo de uma luta, que, ultrapassando fronteiras, o colocou no patamar dos mais prestigiados líderes africanos da segunda metade do século XX\", lê-se no documento.

O Bureau Político do MPLA considera que, volvidos 37 anos do desaparecimento físico de Agostinho Neto, os seus ensinamentos continuam vivos, \"na edificação de uma verdadeira pátria de trabalhadores, onde, também através deles, Angola está a diversificar a sua economia, promovendo o aumento da produção nacional, para diminuir as importações, aumentar os níveis de emprego e o rendimento das famílias.\"

No comunicado, o MPLA cita o actual Presidente da República, José Eduardo dos Santos, para quem os angolanos devem trabalhar para fazer prosperar a Nação. “Os órgãos da administração central e local devem lidar com os desafios do presente, com os olhos postos no futuro e criar mecanismos para dar aos cidadãos as ferramentas que permitam a sua participação nos destinos da sua comunidade, num modelo de gestão autárquica futura, onde não sejam meros destinatários dos serviços públicos, mas, sim, os seus verdadeiros agentes.”  

Nesta perspectiva, o Bureau Político do Comité Central do MPLA encoraja os militantes, simpatizantes e amigos do partido e todo o povo angolano a reforçarem o seu engajamento nas tarefas colectivas, no sentido de  identificação dos problemas e das soluções para os actuais desafios, no quadro de uma democracia participativa. 
 
\"Convicto de que o mais importante é resolver os problemas do povo, o Bureau Político do Comité Central do MPLA encoraja o Executivo a prosseguir e a redobrar as acções, visando atingir tal desiderato, com o envolvimento de todos os angolanos, pois, só unidos vamos construir uma Angola melhor\", conclui o comunicado.

O percurso do poeta maior

António Agostinho Neto nasceu no dia 17 de Setembro de 1922 na aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo. O pai era pastor e professor da Igreja Metodista e a mãe era igualmente professora.

Após ter concluído o curso liceal em Luanda, trabalhou nos serviços de Saúde e tornou-se rapidamente uma figura proeminente do movimento cultural nacionalista que durante os anos quarenta do século passado conheceu uma fase de vigorosa expansão em Angola.
Decidido a formar-se em Medicina, embarcou para Portugal em 1947, matriculou-se na Faculdade de Medicina de Coimbra e posteriormente na de Lisboa. Dois anos depois da sua chegada a Portugal, foi-lhe concedida uma bolsa de estudo pelos Metodistas americanos.

Agostinho Neto envolve-se desde muito cedo em actividades políticas, sendo preso em 1951, quando reunia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz em Estocolmo. Após a sua libertação, retoma as actividades políticas e torna-se representante da juventude das colónias portuguesas junto do Movimento da Juventude Portuguesa, o MUD juvenil.

E foi no decurso de um comício de estudantes a que assistiam operários e camponeses que a PIDE o prendeu pela segunda vez, em Fevereiro de 1955, só vindo a ser posto em liberdade em Junho de 1957.

Por altura da sua prisão em 1955, veio a lume um opúsculo com poemas seus que denunciavam as amargas condições de vida do povo angolano.  A sua prisão desencadeou uma vaga de protestos em grande escala. Realizaram-se encontros; escreveram-se cartas e enviaram-se petições assinadas por intelectuais franceses de primeiro plano, como Jean-Paul Sartre, André Mauriac, Aragon e Simone de Beauvoir, pelo poeta cubano Nicolás Gullén e pelo pintor mexicano Diogo Rivera. Em 1957, Agostinho Neto foi eleito prisioneiro político do ano pela Amnistia Internacional. 

Em 1958, Agostinho Neto licenciou-se em Medicina e casou com Maria Eugénia, no próprio dia em que concluiu o curso. Neste mesmo ano, foi um dos fundadores do clandestino Movimento Anticolonial (MAC), que reunia patriotas oriundos das diversas colónias portuguesas. 

Em 30 de Dezembro de 1959, Neto voltou ao seu país, com a mulher, Maria Eugénia, e o filho de tenra idade, e passou a exercer a Medicina entre os seus compatriotas. Em 8 de Junho de 1960, o director da PIDE foi pessoalmente prender Neto no seu consultório em Luanda.

Uma manifestação pacífica realizada na aldeia natal de Neto em protesto contra a sua prisão foi recebida por balas da polícia. Trinta mortos e duzentos feridos foi o balanço do que passou a designar-se por Massacre de Icolo e Bengo.

Com receio das consequências que podiam advir da sua presença em Angola, mesmo encontrando-se preso, os colonialistas transferiram Neto para uma prisão de Lisboa e, mais tarde, enviaram-no para Cabo Verde, para Santo Antão, e depois para Santiago, onde continuou a exercer Medicina sob constante vigilância política. Durante este período, foi eleito Presidente Honorário do MPLA.

Por mostrar a alguns amigos em Santiago (Cabo Verde) uma fotografia, em que um grupo de jovens soldados portugueses sorriam para a câmara, segurando um deles uma estaca em que foi espetada a cabeça de um angolano e inserta em diversos jornais (por exemplo, no “Afrique Action”, semanário que se publica em Tunes), Agostinho Neto foi preso na cidade da Praia em 17 de Outubro de 1961 e transferido depois para a prisão do Aljube, em Lisboa. 

Sob forte pressão, interna e externa, as autoridades fascistas viram-se obrigadas a libertar Neto em 1962, fixando-lhe residência em Portugal. Todavia, pouco tempo depois da  saída da prisão, Agostinho Neto, em Julho de 1962, saiu clandestinamente de Portugal com a mulher e os filhos pequenos, chegando a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha ao tempo a sua sede exterior.

Em Dezembro desse ano, foi eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento. 

Em 1970 foi-lhe atribuído o Prémio Lótus, pela Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos.  Com a Revolução dos Cravos em Portugal e a derrocada do regime fascista de Salazar, continuado por Marcelo Caetano, em 25 de Abril de 1974, o MPLA considerou reunidas as condições mínimas indispensáveis, quer a nível interno, quer a nível externo, para assinar um acordo de cessar-fogo com o Governo Português, o que veio a acontecer em Outubro do mesmo ano.

Agostinho Neto regressa a Luanda no dia 4 de Fevereiro de 1975, sendo alvo da mais grandiosa manifestação popular de que há memória em Angola.

Agostinho Neto foi um esclarecido homem de cultura para quem as manifestações culturais tinham de ser, antes de mais, a expressão viva das aspirações dos oprimidos, armas para a denúncia de situações injustas, instrumento para a reconstrução da nova vida. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, foi eleito pelos seus pares seu primeiro Presidente.

Por ocasião dos 90 anos do nascimento do Dr. António Agostinho Neto,  poeta-maior e primeiro Presidente de Angola, a Fundação que leva o seu nome pôs à disposição do público, no dia 14 de Maio, em Luanda, na sede da União dos Escritores Angolanos, o livro “A Noção de Ser” e o DVD “Portugueses Falam de Agostinho Neto”.

O livro “A Noção de Ser” é um marco na história da recepção e do estudo da poesia de Agostinho Neto.  Agostinho Neto faleceu em Moscovo, a 10 de Setembro de 1979.

LUTA

Violência
vozes de aço ao sol
incendeiam a paisagem já quente

e os sonhos
se desfazem
contra  uma muralha de baionetas

Nova onda se levanta
os anseios se desfazem
sobre corpos insepultos
E a nova onda se levanta para a luta
e ainda outra e outra
até que da violência
apenas reste o nosso perdão.

Poema de Agostinho Neto escrito
na Cadeia do Aljube, em Lisboa,
em Setembro de 1960


O IÇAR DA BANDEIRA

Poema dedicado aos heróis do povo angolano
 
Quando voltei
as casuarinas tinham desaparecido da cidade

e também tu
amigo Liceu
voz consoladora dos ritmos quentes da farra
nas noites dos sábados infalíveis

também tu
harmonia sagrada e ancestral
ressuscitada nos aromas sagrados do Ngola Ritmos

Também tu tinhas desaparecido 
e contigo
a Liga
o Farolim
as reuniões das Ingombotas
a consciência dos que traíram sem amor

Cheguei no momento do cataclismo matinal 
em que o embrião rompe a terra humedecida pela chuva
erguendo a planta resplandecente de cor e juventude

Cheguei para ver a ressurreição da semente
a sinfonia dinâmica do crescimento da alegria nos homens

E o sangue e o sofrimento
eram uma corrente tormentosa que dividia a cidade

Quando eu voltei 
O dia estava escolhido
e chegava a hora
Até o riso das crianças tinha desaparecido
e também vós
meus bons amigos meus irmãos
Benge, Joaquim, Gaspar, Ilídio, Manuel
e quem mais?
- centenas, milhares, de vós amigos
alguns desaparecidos para sempre
para sempre vitoriosos na sua morte pela vida

Quando eu voltei 
qualquer coisa gigantesca se movia na terra
os homens nos celeiros guardavam mais
os alunos nas escolas estudavam mais
o sol brilhava mais

e havia juventude calma nos velhos
mais do que esperança era certeza
mais do que bondade era amor

Os braços dos homens
a coragem do soldado
os suspiros dos poetas
Tudo todos tentavam erguer bem alto
Acima das lembranças dos heróis
Ngola Kiluanji
Rainha Ginga
Todos tentavam erguer bem alto
A bandeira da independência

Poema de Agostinho Neto, escrito na
Cadeia do Aljube, em Lisboa, em Agosto de 1960 



Livros publicados

Poesia


1957 
- “Quatro Poemas de Agostinho Neto”, Póvoa do Varzim.
1961 - “Poemas”, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império
1974 - “Sagrada Esperança”, Lisboa, Sá da Costa (inclui poemas dos dois primeiros livros)
1982 - “A Renúncia Impossível”, Luanda, INALD

Política

1974 - “Quem é o inimigo… qual é o nosso objectivo?”
1976 - “Destruir o velho para construir o novo”
1980 - “Ainda o meu sonho” e “Caminho do mato”





Imagem: Arquivo | Edições Novembro

+ informação encontre no jornal impresso já nas bancas!

Sem comentários:

Com tecnologia do Blogger.